quarta-feira, 21 de maio de 2008

Injustamente esquecidos


A independência de Timor é fruto do sacrifício de muitos timorenses, de todos os quadrantes políticos. Pelo menos, é o que os políticos dizem quando pretendem propagandear ao Mundo a unidade conseguida pelos timorenses durante mais de uma vintena de anos na luta travada com os indonésios.

Antes ainda da entrada dos invasores indonésios, Timor encontrava-se a ferro e fogo, numa luta fratricida que dizimou muitos milhares de timorenses cujo único crime consistiu na liberdade de pensamento que defendiam ser um direito humano inalienável. Não o pensaram assim os fautores da independência unilateral de 28 de Novembro de 1975.

Milhares de timorenses - por haverem cometido o crime de querer um Timor independente diferente do que o que pretendiam a FRETILIN e o Poder português saído da Revolução de Vinte e Cinco de Abril de 1974 – foram barbaramente assassinados por outros timorenses acobertados pelo revolucionarismo de cariz esquerdista.

Pensava eu que passados mais de trinta anos sobre o ano nefasto de 1975, os líderes timorenses que hoje ocupam cargos políticos – após anos do que eu imaginava ser de profunda interiorização da fundamental unidade nacional feita à custa de sangue, suor e lágrima de todo o povo, ao qual pertencem os militantes de outros partidos timorenses para além da FRETILIN - tivessem (finalmente!) concluído que a independência de Timor se deve a todos os timorenses e não só a determinado partido e a algumas personalidades políticas desse partido.

Julgava eu, animado do fervor patriótico que a todos os timorenses anima em dias de comemoração da independência a 20 de Maio– data a que pomposamente se denomina de restauração da independência -, que a liderança timorense teria coragem suficiente para incluir, nos seus discursos oficiais, na imposição de medalhas, de condecorações, da saudação aos mártires da Pátria, os mártires de outros partidos que pereceram às mãos da FRETILIN, antes ainda da invasão oficial pela Indonésia.

Acredito também que os sobreviventes das masmorras de Aileu se lembram do sofrimento e dos terrores infligidos pelos revolucionários. Mas, se alguns prisioneiros se salvaram (alguns deles devido ao gesto de clemência de uns muito poucos revolucionários condoídos da sua má sorte) igual sorte não coube a tantos outros que jazem em valas que guardam milhares de restos mortais de militantes da UDT, da APODETI e do KOTA, quantos deles enterrados vivos!

Tem sido vã a esperança de que os líderes timorenses se imbuam da generosidade de reconhecer que, para além dos mortos às mãos da Indonésia, timorenses houve – e foram milhares! – que sucumbiram às mãos dos revolucionários da FRETILIN.

E assim é que, ano após ano, em cada 20 de Maio da comemoração da independência, se prestam loas, se curvam, se referem os nomes de militantes da FRETILIN e se esquece de que timorenses houve que mataram outros timorenses cujo único crime foi pensar um Timor livre mas diferente.

E é por isso também que, ano após ano, vou perdendo a crença de que a unidade nacional é real, é interiorizada, é sentida.

Assim será enquanto permanecerem propositadamente esquecidos nomes dos que foram barbaramente assassinados pela FRETILIN, numa tentativa da liderança de falsear a História branqueando aqueles que ordenaram as execuções.

Mas, se a liderança timorense, se os detentores do Poder político de hoje continuam a ignorar o nosso contributo para a independência de Timor, se todos teimam em esquecer os nossos mortos, gritemos a nossa revolta ao Mundo – apesar do esquecimento do Senhor Presidente da República Ramos Horta num gesto consequente de gesto igualmente revelador da vontade do seu antecessor Xanana Gusmão de esquecer que há outros heróis em Timor - dizendo que a FRETILIN assassinou

Vasco Senanes,
Fernando Luz,
Agapito Mariz,
Coronel Lourenço,
Casimiro,
Maggiolo Gouveia,
António Araújo
Nélio Oliveira,
César Mouzinho,
José Oliveira,
Luís Oliveira,
Serafim dos Santos,
Guilherme Exposto dos Santos,
Adão Exposto,
Águedo Inácio,
Rogério Inácio

Não quero esquecer também os irmãos Maia, os jovens Jerónimo (16 anos) e Rui (14 anos), que foram ambos mortos em Same!

Muitos outros nomes ficaram por ser aqui referidos mas, para ilustrar, a barbárie de 1975, estes exemplos são bastantes!

Se restarem dúvidas sobre a verdade histórica, há sobreviventes que vivem em Timor, em Portugal e na Austrália que ainda não conseguiram esquecer os maus tratos, poderão prestar esclarecimentos e apontar os nomes e as caras dos seus algozes!

Assisti à condecoração de Mari Alkatiri e de Ramos Horta e pensei que também os líderes da UDT que lutaram por Timor seriam condecorados. Mas não. Deles não consta a lista de heróis do então Presidente Xanana Gusmão. Nem sequer do actual Presidente.

Considero de elementar justiça atribuir a condecoração pelos trabalhos prestados durante os anos da Resistência na diáspora a João Carrascalão, Domingos Oliveira, António Nascimento, Lúcio Encarnação, entre tantos outros.

Ou que, Manuel Carrascalão, activista e fundador do Movimento para a Unidade e Reconciliação do Povo de Timor-Leste (MURPTL) defensor acérrimo do Referendo em Timor, fosse reconhecido como personalidade histórica e por isso o condecorassem.

Mas, ano após ano, as condecorações, os cumprimentos e as homenagens limitam-se a personalidades da área da FRETILIN, contribuindo para o descrédito da vontade de construir uma Nação onde todos os timorenses tenham lugar e vejam reconhecidos os seus méritos, o seu trabalho, o seu esforço.

Não compreendo como nunca se nomeia Francisco Gonçalves, com o nome de guerra Mali Iku – operador de transmissão, o único que, na Ponta Leste, decifrava os códigos políticos do comissário político Juvenal Inácio, Será Kei; ou Rui Gonçalves, que tinha o nome de guerra de Ximangano Mac Mahon e foi um prisioneiro político de Aileu que, depois da invasão, pelas suas qualidades de liderança, ascendeu a comandante da guerrilha e Delegado Político.

Se o Senhor Presidente da República actual, se o Presidente da República anterior os esqueceram, tal como os esqueceram os deputados ao Parlamento Nacional, nós não os esquecerenos!

Se outros esquecem, cabe-nos a nós, militantes da UDT, lutar - sempre! -, para que o Mundo não esqueça que outros heróis existem para além dos que anualmente são propagandeados pelos actuais líderes timorenses e pela própria FRETILIN.

Se a esperança deve prevalecer, então direi que continuo à espera que Timor seja um dia a Pátria que entre os seus braços vai acolher todos os seus filhos independentemente da sua raça, credo ou convicção política! E que então ninguém mais se sentirá injustiçado, marginalizado, ignorado, numa desnecessária demonstração de desprezo.

Hélder Encarnação

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Presidente de Timor Leste regressou ao Pais esta manha







Jose Ramos Horta regressou a Timor Leste dois meses e 6 dias depois de ter sido gravemente ferido por elementos do grupo de Alfredo Reinado. Como todos os Timorenses amantes da paz e da democracia a Uniao Democratica Timorense tambem compartilha da alegria com que o povo Timorense o recebeu a sua chegada por o ver recuperado e pronto para retomar as funcoes de chefe de estado.








quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O Ataque a Nacao Timorense

A diaspora timorense na Australia viveu angustiada as primeiras horas da manha de 11 de Fevereiro de 2008. E que as emissoras e os canais de TV mencionaram nos seus noticiarios um atentado liderado por Alfredo Reinado e que tinha por alvo o Presidente e o Primeiro Ministro da Republica Democratica de Timor-Leste. O Primeiro Ministro saiu ileso do ataque levado a efeito por Salsinha, mas o Presidente da Republica foi atingido e encontra-se em estado muito grave no Hospital de Darwin. Como filiados de um partido historico manifestamos a nossa mais veemente condenacao pelos actos destes dois ex-militares timorenses e exigimos que se faca justica aos perpetradores do hediondo crime de ontem. Fazendo eco das palavras do Brigadeiro General Taur Matan Ruak exigimos tambem um inquerito a Missao das NU em Timor-Leste por nao ter ligado a alerta lancado pelo brigadeiro na semana passada de que o Presidente e o Primeiro Ministro estariam suscpetiveis a um atentado. Embora a cronologia abaixo diga o contrario, continuamos a lamentar que o Dr Ramos Horta tivesse que esperar muito tempo pelos primeiros socorros. Se nao fosse a GNR, ele continuava ainda mais tempo deitado sem ajuda e a espera dos primeiros socorros porque a ONU paraou 300 metros de distancia da residencia do Dr Ramos Horta nao mexeu uma agulha para retirar o Presidente Ramos Horta e leva-lo as instalacoes de urgencia. Que Deus e a Virgem de Aitara ajudem o nosso Presidente a recuperar-se rapidamentre, pois Timor precisa ainda do seu amor, da sua inteligencia e das suas qualidades de grande politico

Díli, 11 Fev (Lusa) - A cronologia dos acontecimentos principais do duplo ataque contra o Presidente da República e o primeiro-ministro de Timor-Leste, segundo o relatório oficial de operações, a que a Agência Lusa teve acesso, e a informação combinada de fontes oficiais da Presidência, do Governo e da missão das Nações Unidas.
06:15 - Um grupo de homens armados liderado pelo major Alfredo Reinado, em duas viaturas, ataca a residência de José Ramos-Horta em Meti-hau; o Presidente estava fora mas perto, no "jogging" matinal junto à praia da Areia Branca;
06:20 - Alfredo Reinado é morto a tiro poucos minutos após o início do ataque, alvejado por um dos elementos da sua antiga unidade, a Polícia Militar, que integra a escolta presidencial;
06:50 - A irmã de José Ramos-Horta telefonou-lhe avisando-o de que havia tiroteio em Meti-hau;
06:59 - Primeira chamada para o Centro Nacional de Operações, devido ao tiroteio; duas unidades de polícia nacional e internacional são enviadas a partir de Becora;
07:00 - José Ramos-Horta terá sido alvejado cerca desta hora, num segundo tiroteio, quando se aproximava do portão da sua residência;
07:00 - É chamado o Subagrupamento Bravo da GNR;
07:10 - É chamada ao local a primeira ambulância;
07:11 - Elementos das Operações Especiais do Subagrupamento Bravo saem do quartel para Meti-hau;
07:13 - José Ramos-Horta telefona à sua chefe de gabinete, Natália Carrascalão, dizendo que precisa de ajuda;
07:15 - Os primeiros militares da GNR chegam ao local e assistem José Ramos-Horta, que estava caído na estrada; o Presidente é socorrido e evacuado para o hospital de campanha das forças australianas em conjunto pela GNR e pela equipa do INEM que está adstrita ao contingente português em Timor-Leste;
07:45 - Um grupo armado, liderado pelo tenente Gastão Salsinha, número-dois de Alfredo Reinado, ataca a coluna de veículos do primeiro-ministro, depois de Xanana Gusmão sair da sua residência em Balíbar e começar a descer a estrada para Díli; um carro da segurança despista-se; o carro do primeiro-ministro é atingido mas chega à cidade;
08:00 - Gastão Salsinha volta à residência do primeiro-ministro e tenta conseguir as armas dos seguranças de Xanana Gusmão;
15:45 - O Presidente da República é evacuado de helicóptero para o aeroporto internacional de Díli;
16:00 - Evacuação de José Ramos-Horta de avião para Darwin, onde será submetido a segunda intervenção cirúrgica. Regards

sábado, 18 de agosto de 2007

A UDT está de luto

Realizou-se hoje o funeral de Francisco Alberto Carlos, vice-presidente do Conselho de Jurisdição Nacional da UDT, cargo para o qual foi eleito no III Congresso realizado em Díli em Junho de 2003.
Francisco Carlos foi feito prisioneiro em Same no ano de 1975 pela FRETILIN. Mas conseguiu escapar à morte, mercê da generosidade de um amigo que o ajudou a evadir-se da prisão.
Há mais de três anos que o Sr. Chico estava gravemente doente, mantendo-se contudo sempre interessado na vida do partido.
A UDT perdeu um dos seus mais insignes filiados. Mas Francisco Carlos deixa o seu nome na história da UDT. E o seu exemplo de udetista interventor, convicto, de rija têmpera e corajoso será certamente um modelo a seguir por todos nós.
Até sempre, Sr. Chico!

sábado, 11 de agosto de 2007

O Movimento de Onze de Agosto de 1975


Hoje, como há 33 anos, a UDT procura a solução dos problemas, pugna pela defesa de todos os timorenses independentemente da raça, cor, religião, ideologia e direitos civis e políticos, aceita e observa a Declaração Universal dos Direitos do Homem, reconhecendo-a como documento do mais alto valor e significado para a Humanidade.

Na UDT defende-se a paz, a igualdade e a liberdade do Povo porque se entende que “todas as pessoas nascem livres e iguais na dignidade da pessoa humana com iguais direitos e deveres e nada deve coarctar a sua liberdade senão a lei, elaborada de acordo com os mais íntimos interesses éticos e espirituais do Povo Timorense”.

O Homem Timorense merece que se defenda o seu “desenvolvimento integral” e, sendo seu entendimento que “o Povo é a pedra de toque, pois o que define uma Nação é o Povo e a sua Cultura”, a UDT empenha-se na “promoção do desenvolvimento social, económico, cultural e político” desse povo, batalhando pelos direitos dos trabalhadores e pela construção de uma sociedade livre, solidária, democrática e humana.

São princípios da UDT. São as linhas que desde 1974 norteiam o mais antigo partido timorense! E, contudo, passados 33 anos a mensagem continua actual! E, contudo, hoje, como há 33 anos a intolerância continua a fazer parte do comportamento de alguns timorenses. Infelizmente, hoje, passados cinco anos sobre a independência, Timor vive um dos períodos mais tristes da sua curta história enquanto país! Os incidentes que se sucedem em vários distritos, transportam-nos para um outro tempo de intolerância que gostaríamos de ver arredado do nosso querido Timor!

Nos tempos idos de 1975, os ventos não estavam de feição para o surgimento de movimentos moderados e a UDT foi marginalizada pelo novo Governo da província de Timor, apostado em implementar tão depressa quanto pudesse as novas linhas de orientação emanadas pelo governo português, contribuindo para aquilo a que mais tarde, de forma brilhante e sarcástica o historiador António José Saraiva apelidou lucidamente de “debandada de pé descalço”.

O descontentamento com o rumo da política, particularmente com a intervenção de alguns militares portugueses - mais interessados em fazer vingar as suas novíssimas teorias revolucionárias de Esquerda do que em bem descolonizar Timor - origina uma onda de revolta popular e, em 1975, a UDT, insurge-se contra o estado das coisas protagonizando o Movimento de Onze de Agosto, erradamente apelidado de “Golpe”.

No dia em que passa mais uma no sobre a data em que a UDT se levantou para salvar o país, é nosso dever recordarmos todos os udetistas que tombaram pela UDT, pela defesa das suas convicções e pelo bem de Timor!

Assinalamos o 32º aniversário do Movimento de Onze de Agosto com a trasncrição do artigo publicado no semanário Lia Foun - sob o título" A História não se apaga: Foi há trinta anos o Movimento de Onze de Agosto" - aquando dos 30 anos desta data histórica, recorrendo apenas a necessária actualização da data da ocorrência.


"Quando, há trinta e dois anos, a UDT levou a cabo o Movimento de 11 de Agosto não imaginava que a sua tentativa de corrigir a tortuosa descolonização do então Timor português tivesse um desfecho tão sangrento.
Numa altura em que se fala até à exaustão de reconciliação, mesmo sabendo que apenas diz respeito aos desmandos dos ocupantes indonésios - e quando os mais altos dignitários do país apostam nela como caminho para se chegar à verdade -, quando se aposta na omissão da justiça ou no adiamento da sua execução, é urgente falar-se da verdade, mau grado todos saibamos da incomodidade dessa verdade.
“Sobre o conflito político de 1974-1975, cabe a cada partido político escrever a sua história, preenchendo-se a lacuna que se sente para uma análise conscienciosa na viragem política verificada em Timor, a partir do 11 de Agosto de 1975, com a implementação da guerra civil, aproveitada pela Indonésia para invadir e anexar Timor, desfraldando-se os crimes que se registaram”, diz Lúcio Encarnação.
Para o então Administrador do Concelho de Ainaro, “como timorense e vítima dessa guerra civil, quero apenas historiar o que sofri como dito prisioneiro político nas masmorras criadas pela FRETILIN, para apuramento das responsabilidades cabidas aos líderes políticos virados criminosos de guerra com garras de verdadeiros assassinos”.
Os testemunhos das vítimas de 1975 são dramáticos, deles transparecendo as mágoas pelo sofrimento que lhes foi infligido esmagando o direito humano de defesa de convicções políticas individuais.
A crueldade desse confronto fratricida ultrapassou o humanamente expectável, ainda nada está totalmente esquecido, mas, considerando que a Nação deve ser construída em paz e pela paz, tem-se feito um esforço sobre-humano para esquecer as mágoas, mesmo que do outro lado nem sempre tenha prevalecido a tolerância e nem sempre haja a coragem suficiente para o indispensável reconhecimento do erro de 1975.
Quando em Dezembro de 2003, na sessão do CAVR sobre os acontecimentos de 1975, o actual presidente da UDT e operacional do Movimento de 11 de Agosto, João Viegas Carrascalão, perante o lavar de mãos e a desresponsabilização de muitos intervenientes, entendeu, por bem, chamar a si a responsabilidade do que então se passara nesse ano longínquo, fez-se um apelo à verdade e os dirigentes da FRETILIN presentes reconheceram a sua quota parte de responsabilidade nesse conflito.
Impunha-se que Portugal compreendesse como uma inevitabilidade a independência das suas colónias e a preparasse gradual, segura e cuidadosamente e nunca desastrada nem descuidadamente.
Contudo, com o advento do 25 de Abril de 1974, os militares progressistas do Movimento das Forças Armadas que acompanhavam o novo governador, brigadeiro Lemos Pires, animados pelo espírito novo da Revolução, tentavam implementar medidas desajustadas sem nenhuma preocupação pela especificidade timorense, na ânsia de terminar com o denominado império ultramarino resultante do salazarista “Portugal do Minho a Timor”.
Contaram para isso com os estudantes universitários entretanto regressados da “Metrópole”.
Do outro lado, estava a conservadora sociedade timorense.
Se, por um lado, os tempos eram de paixão revolucionária e os voluntariosos líderes políticos da altura estavam na flor da idade e relativizaram as repercussões das suas atitudes, por outro lado, a pressa na descolonização denominada pelo historiador António José Saraiva como a “debandada do pé descalço” semeou o veneno que haveria de originar o Onze de Agosto de 1975.
Persiste o mal entendido sobre a natureza deste “movimento”; há quem force a história falando de “golpe de estado”. Só que não houve nenhuma tentativa de tomar o Poder. Aliás, citando João Carrascalão, “nunca poderia ter havido um golpe que só existe quando há uma acção contra o Poder instituído e nunca esteve nos objectivos da UDT nenhuma tentativa de tomada do “Poder instituído”.
Não quer dizer que o Poder não tenha sido oferecido de bandeja à UDT, para o que citamos Domingos Oliveira, um dos fundadores históricos do partido e seu Secretário-Geral até 2003, que refere que “a situação deteriorou-se e o governo português fez um ultimato à UDT no sentido de assumir o governo e todas as responsabilidades da nova situação ou desarmar-se” tendo a UDT recusado “esclarecendo mais uma vez que o Movimento englobava todos os partidos políticos e nem a independência imediata e nem a formação de um governo timorense eram o seu objectivo”.
Pretendia-se apenas que “os pára-quedistas tomassem conta do paiol e destacamento militar, a Polícia Militar passasse a controlar a cidade, o Governador assumisse as responsabilidades da cimeira de Macau e que, se isto acontecesse não só ela (a UDT), mas todo o Movimento desarmariam e entregariam o seu armamento à Polícia Militar”.
Parafraseando alguém, o Movimento de 11 de Agosto foi “uma reacção lógica ao rumo dado pela Descolonização e uma tentativa de travar o fim para o qual os ambiciosos, irresponsáveis ou os mal intencionados governantes empurravam Timor” e surgiu devido aos desmandos de quem julgava ser possível a independência numa orgia de revolucionarismo radical, com a implementação da prática das “zonas libertadas” sob controlo da FRETILIN onde, entre outros factos, se prendia e se cobravam tributos.
Soa a exagero a busca de muitos na sistemática tentativa de responsabilização da UDT na invasão indonésia, atribuindo-lhe uma falsa influência junto das grandes potências quando, na prática e no terreno, são os mesmos que diminuem e lhe retiram qualquer representatividade. Conhecendo a força dos EUA no Mundo é fácil perceber-se que não era necessária a intromissão de ninguém para o aval à invasão indonésia.
Domingos Oliveira, no depoimento ao CAVR (Comissão de Acolhimento Verdade e Reconciliação) considera que “As relações cada vez mais tensas entre a UDT e a FRETILIN, a passividade do governo de Lemos Pires, bem como a execução fiel pelos majores Mota, Jónatas e outros oficiais da vontade do governo central de Lisboa em abandonar de qualquer maneira Timor; as ameaças constantes da invasão indonésia e a pressão exercida pelos próprios adeptos da UDT sobre os seus dirigentes, obrigaram-nos a pensar seriamente numa tomada de posição que conduzisse à paz e harmonia entre todos os timorenses, obrigasse Portugal a ficar o tempo julgado necessário pelos timorenses para uma preparação adequada ao exercício consciente do seu direito a autodeterminação e destruísse todos os pretextos da Indonésia para invadir Timor.”
Aliás, já desde o tempo anterior a 1974, se sabia que Timor exercia um terrível fascínio sobre o Poder indonésio que não se inibia de demonstrar publicamente o seu apetite pela meia ilha timorense. Por outro lado, a Indonésia, potência regional, contava com o apoio americano na luta contra o comunismo: era preciso refrear os ânimos e não lhe dar nenhuma hipótese de se lançar sobre Timor.
E se hoje é tão claro, tão lógico e tão absolutamente fundamental atentar-se nas relações de boa vizinhança com o nosso poderoso vizinho como forma de salvaguarda dos nossos interesses, levando-nos a enveredar por caminhos que não são totalmente do agrado popular em defesa da reconciliação independentemente da justiça, só mesmo os verdes anos da classe dirigente da FRETILIN podem servir de fundamentação para a falta de perspicácia no entendimento do ávido apetite indonésio por um qualquer rincão onde se vislumbrasse uma réstia de fervor comunista.
É ainda Domingos Oliveira que explica a percepção desse apetite imperialista sobre o território quando dois dirigentes da UDT se deslocaram em visita a Jacarta “onde na companhia do Presidente do Comité Central, Lopes da Cruz, se avistaram com o general Ali Moertopo a quem expressaram a total discordância da afirmação de Suharto de que Timor só tinha duas opções: integração na Indonésia ou ligação a Portugal e a firme determinação do seu partido fazer tudo para a independência”.
No dia 10 de Agosto, a UDT decidiu-se por “uma tomada de posição que envolvesse todos os timorenses para a paz e harmonia”. Em reunião com a Comissão de Descolonização foram definidos os objectivos e prestados todos os esclarecimentos sobre a natureza e o envolvimento de outras forças no Movimento que defendia a independência através de um processo adequado de descolonização, culminando num referendo.
No dia 11 o Movimento estava na rua. Sem apostar na independência imediata, “não era contra a administração portuguesa nem contra a FRETILIN, mas defendia a unidade do povo, com uma frente única que integraria todos os partidos independentistas, incluindo a FRETILIN, depois de expurgada dos seus elementos marxistas ou extremistas”.
Lemos Pires tentou mas nunca houve conversações com a FRETILIN que apresentou - no entender da UDT - uma série de condições inaceitáveis, ao mesmo tempo que se sucediam as cenas de violência, com assassinatos de elementos da UDT.
A 18 de Agosto os representantes do Movimento e sargentos timorenses emitiram um comunicado em que se apelava à unidade, se recusava o comunismo e se reiterava o objectivo da autodeterminação e independência, mas estava já em marcha o contra ataque da FRETILIN, com o apoio de alguns militares portugueses, dando-se início a uma luta fratricida de que resultaram milhares de mortos.
De entre os militares portugueses, sobressai o abandono de Timor à sua sorte com a fuga do governador para o Ataúro; dois militares tomaram o partido da UDT e, se ficaram de bem com a sua consciência, acabaram por pagar bem caro a sua escolha. O capitão Vasco Lino da Silva, comandante da companhia de Lospalos, engrossou o número de refugiados em Atambua. Foi marginalizado e a sua reintegração no exército português deu-se muitos anos depois do regresso a Lisboa. Menos sorte teve o tenente-coronel Maggiolo Gouveia, comandante da Polícia, levado para Aileu onde acabou por sucumbir aos maus tratos.
Muitos dos dirigentes da UDT foram impiedosamente castigados, chacinados por defenderem os seus ideais políticos como foi o caso de César Mouzinho, Vasco Senanes, António Araújo, Agapito Mariz e Fernando Luz.
Os prisioneiros políticos da UDT, KOTA, TRABALHISTA e APODETI, foram barbaramente torturados, massacrados, enterrados vivos em valas comuns em Aileu, Maubisse ou Same .
Os sobreviventes remetem-se ao silêncio e procuram conviver com os seus algozes.
Forçada a recuar para o território indonésio de Atambua, acompanhada por milhares de refugiados (tendo aí a APODETI aderido ao MAC – Movimento Anti-Comunista, formado pela UDT, o KOTA e o Partido Trabalhista) a UDT fez uma longa e dolorosa travessia no deserto, arrastando consigo o ónus da invasão e posterior ocupação estrangeira que, em boa verdade, lhe é alheia, antes pertence a quem entendeu ser possível implantar em Timor políticas de outras realidades diversas e a quem teve uma terrível falta de tolerância e respeito pelas opções políticas de cada um.
Um ponto controverso da passagem da UDT pela Indonésia tem a ver com a declaração de Balibó, assinada por alguns elementos da sua liderança. No entanto, talvez fosse um gesto de generosidade e de elementar justiça reconhecer-se que o documento foi assinado sob pressão, um bocado à semelhança do que aconteceu com Xanana Gusmão quando, após ter sido preso, proferiu o que não pretendia e todos entenderam dever-se à pressão militar indonésia.
A estruturação da sociedade timorense passa pelo adormecimento dos crimes, mas impõe-se que haja a consciencialização desses crimes. Só assim será possível construir solidamente a Nação timorense, só desta forma as vítimas sentirão a igualdade de direitos num Estado que se quer de direito."

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Um pouco por todo o Mundo onde há Udetistas, se recordou o Movimento de Onze de Agosto. O espírito desse dia histórico mantém-se vivo em todos nós que acreditamos e somos da UDT.

Transcrevemos as mensagens de dois Udetistas convictos.

De José Luís Valadares, de Darwin...

”Faz hoje 32 anos do Movimento de 11 de Agosto. Lembro me desse dia como se fosse hoje. Os acontecimentos actuais em Timor são idênticos aos de 32 anos atrás isto e a violência, as intimidações e os assassinatos a quem não tivesse do lado deles. A inactividade do governo da altura em nao manter a ordem e proteger os indefesos forçaram o aparecimento do 11 de Agosto. Para nos Udetistas e também um dia de reflexão sobre o partido.

Abraços a todos

José Luís”


... e de António José Pinto, de Cairns

“Caros amigos, sim foi esse dia que mudou o rumo de Timor para o principio da libertação e não aos usurpadores do poder, dos quais alguns ainda estão emTimor, a UDT pôs Timor nas paginas internacionais ao iniciar o Movimento. Vamos reflectir e rezar pelas almas dos nossos irmãos que foram assassinados em Aileu e outros lados, os quais o único pecado eram de ser filiados da UDT.

um abraço a todos

Toze Pinto”




sábado, 4 de agosto de 2007

O Presidente da UDT, João Carrascalão, atacado na Rotunda do aeroporto de Comoro

“Lisboa, Timor-Leste 03/08/2007 17:50 (LUSA)

Lisboa, 03 Ago (Lusa) - Jovens apedrejaram quinta-feira à noite em Díli, junto ao aeroporto, a viatura em que seguia o presidente da União Democrática Timorense, João Carrascalão, acompanhado da mulher, disse à Lusa aquele dirigente partidário.
Contactado telefonicamente a partir de Lisboa, João Carrascalão precisou que a sua mulher, Rosa Carrascalão, teve de receber tratamento no Hospital Nacional Guido Valadares a um ferimento provocado por uma lasca de vidro num olho.
"Eu estava a regressar a casa, depois de ter jantado em casa da minha irmã, Maria Ângela, e ao passar na rotunda de Comoro, deparei com um grupo de jovens que tinha erguido barreiras na estrada", disse João Carrascalão à Lusa.
Os jovens, presumivelmente pertencentes ao campo de refugiados de Comoro, junto à principal entrada do aeroporto Internacional de Díli, ergueram as barreiras na estrada com pneus e a carcaça de um carro a arder.
Após os incidentes, efectivos da polícia da ONU acorreram ao local, tendo disparado vários foguetes luminosos para afastar os jovens do local. Não foram efectuadas detenções.
O incidente com João Carrascalão ocorreu cinco dias depois de várias viaturas terem igualmente sido apedrejadas no mesmo local, incluindo o carro em que seguia Mário Viegas Carrascalão, irmão do presidente da UDT.
Mário Viegas Carrascalão preside ao Partido Social Democrata, formação partidária que integra a Aliança para a Maioria Parlamentar (AMP), coligação pós-eleitoral de que fazem parte o CNRT, de Xanana Gusmão, o Partido Democrático, de Fernando Lasama e a Associação Social Democrata Timorense, de Xavier do Amaral.
A capital timorense tem sido palco nos últimos dias de incidentes opondo partidários da Fretilin, o partido que venceu as legislativas de 30 de Junho mas sem obter maioria absoluta, a simpatizantes dos partidos da AMP, mantendo elevado o nível de tensão que rodeia o anúncio por parte do Presidente José Ramos-Horta sobre quem vai incumbir de formar o IV Governo Constituciona
A designação do futuro primeiro-ministro tem sido sistematicamente adiada, devendo Ramos-Horta fazer o anúncio na próxima terça-feira, noticiou na quinta-feira a televisão estatal.”

sábado, 14 de julho de 2007

O anúncio da Liga Democrática Progressiva

Foi ontem assinada em Díli a declaração de princípios para a constituição de uma plataforma política entre os seis pequenos partidos sem assento no Parlamento Nacional.
A União Democrática Timorense (UDT), o Partido Democrático Cristão, (PDC), o Partido Milleniun Democrático (PMD), o Partido Socialista de Timor (PST), o Partido Democrático da República de Timor (PDRT) e o
Partido Nacionalista Timorense (PNT) uniram-se numa Liga Democrática Progressiva (LDP) com o objectivo claro de se prepararem como uma alternativa credível aos actuais partidos com assento parlamentar.
João Viegas Carrascalão e Cipriano Gonçalves, respectivamente, presidente e vice-presidente do CSP da UDT, bem como os presidentes e secretários-gerais dos outros partidos assinaram o documento constitutivo da Liga. Ausente da cerimónia esteve o líder do PNT
que se encontra no estrangeiro, devendo assinar o documento posteriormente, juntamente com a sua vice-presidente.
Representado 10 % de eleitores, tantos quantos os votos conquistados nas eleições legislativas de 30 de Junho passado e ciente de que a participação na vida política não se esgota no Parlamento, a LDP assume a responsabilidade
de pugnar pelas justas aspirações do povo; a Liga entende que todos os partidos têm obrigação de contribuir para o desenvolvimento do país, construir uma democracia estável e saudável que seja a base de uma sociedade nova, com mais justiça social e melhor qualidade de vida.
Avelino Coelho, Secretário-Geral do PST e porta-voz da Liga esclareceu que esta se apresentará como um todo, garantindo-se a existência de cada partido que manterá, obviamente, a sua identidade própria. Aliás, acrescentou o porta-voz, a Liga só será forte se os partidos que a constituem forem fortes de forma a que a Liga saia enriquecida com as sinergias de cada partido.
Estão a ser ultimados os Estatutos da Liga que serão aprovados em Convenção em data a ser oportunamente anunciada.